• Patricia Rzezak

Fazendo a lição de casa com seu filho.


Recentemente uma mãe bastante preocupada veio me procurar com a queixa de que o seu filho era muito distraído, tinha dificuldade em se concentrar e ela temia que algo estivesse errado com ele. Depois de um pouco de conversa, descobri que o grande problema se concentrava no momento da lição de casa. Acontece que a escola do garoto havia introduzido, naquele ano, as tarefas a serem realizadas em casa e as crianças de quatro e cinco anos tinham que fazer as tarefas às terças e quintas. Não havia quem conseguisse fazer com que o menino se sentasse por 15 minutos para fazer aquelas tarefas tão simples. Uma vez que ele chegasse em casa, tudo o que queria fazer era brincar, assistir televisão e jogar jogos.

Fiquei me perguntando, então, quando que as tarefas de casa passaram a fazer parte da rotina escolar tão cedo. Pois bem, entendo que as lições de casa no ensino infantil tenham um objetivo bastante específico. Diferentemente do que acontece com as crianças mais velhas, que cursam o Ensino Fundamental, o objetivo não é garantir a aquisição de conteúdos ensinados durante as aulas e permitir a prática sobre os conceitos para potencializar a aprendizagem de habilidades específicas. No ensino infantil as escolas querem começar a acostumar a criança com o fato de terem que fazer atividades da escola fora do ambiente escolar. Querem ensinar o senso de responsabilidade e o conceito abstrato de “entregas”. Também é uma forma de aproximar os pais da escola e ensinar aos pais a importância de seu acompanhamento para garantir o processo de aprendizagem de seus filhos. Além da escola, eles são um agente importante para a formação e educação de seus pequenos.

Muito bem, depois desta contextualização sobre o papel da lição de casa na criança pré-escolar, vamos voltar a minha criança “supostamente desatenta”. Estamos em março, então fazia mais ou menos dois meses que esta nova rotina das lições tinha sido inserida. Até aquele momento, ele estava acostumado a voltar da escola no horário do almoço e depois de comer tirava uma soneca. Quando acordava, depois do lanche, ia brincar e ficava brincando até a hora do jantar. Depois era banho e cama. Agora a lição de casa precisava ser introduzida em algum momento deste dia.

A primeira coisa que tivemos que pensar era em qual momento as tarefas seriam realizadas. O ideal é que ele estivesse descansado, bem-disposto e alimentado. Outra coisa importante é que ele soubesse quanto tempo do seu precioso tempo teria que se dedicar a lição. Sugeri que este prazo fosse próximo de 15-20 minutos e não ultrapassasse 30 minutos. Se ele estiver precisando mais do que este tempo seria interessante verificar se a escola não estaria “perdendo um pouco a mão” e mandando lições demais. Não devemos esquecer os objetivos das tarefas de casa nesta fase. Às vezes pais mais atentos devem entrar em contato com a escola e equalizar expectativas/volume.

Outro ponto muito importante é considerar as recompensas para os trabalhos realizados. Para uma criança pequena, o conceito de responsabilidade, tarefa e “estamos tentando garantir o seu aprendizado” são bastante abstratos. Certamente é muito mais gostoso, quando se está em casa, brincar e se divertir do que fazer as tarefas. Infelizmente, nem sempre as tarefas são lúdicas, embora as escolas se esforcem bastante para garantir um tom de brincadeira para as tarefas enviadas para esta faixa-etária. Recompensas como assistir 10 minutos a mais de televisão, poder trazer um amigo para brincar em casa no dia seguinte, assistir um filme que ele quer ver no cinema no final de semana podem ser recompensas excelentes. Cada criança têm as recompensas que mais funcionam. É importante ver o que funciona com a sua. As recompensas devem ser acordadas antes do dia da lição e a criança deve saber o que receberá em caso de sucesso. Por fim, tentamos garantir um ambiente silencioso, gostoso e bem iluminado onde as lições serão feitas. Aquele seria o seu cantinho dos estudos. As lições deveriam ser feitas juntos com um dos pais ou estes deveriam ficar por perto enquanto ele fizesse suas lições e dariam o suporte adequado quando necessário.

Infelizmente boa parte dos pais não recebe orientações sobre como adaptar os seus filhos a esta nova etapa da vida escolar e nem sobre que ambiente eles devem providenciar para garantir que as crianças insiram esta nova rotina em suas vidas. A mãe do meu paciente arrumou o cantinho de estudo, reservando um espaço do quarto do meu paciente com uma escrivaninha com uma cadeira gostosa e colou adesivos com temas escolares próximos ao ambiente de estudo. Ele passou a fazer as tarefas após a soneca da tarde (melhor horário no caso dele e de sua mãe – isso não é regra!), junto com a sua mãe e as recompensas foram acordadas no final de semana anterior à semana letiva. Não é que funcionou! Após 1 mês destes novos hábitos a mãe não se preocupava que ele fosse uma criança desatenta e aos poucos o momento da lição deixou de ser tão traumático.


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